2 de dezembro de 2007

Muito longe

Edilson Adilson era um rapaz preocupado. Suas preocupações iam do início ao fim do telejornal. Preocupava-se com a violência mostrada no país e preocupava-se com a futilidade do jornal em mostrar as habilidades do cavalo Aquiles. Com a roubalheira e os escândalos políticos e com a falta de chuvas. E com a falta de ética em qualquer lugar. A falta de ética, pensava ele, era o mal que alicerçava todos esses problemas.

Algumas coisas deixavam Edilson Adilson revoltado, outras o deixava com medo, e triste, claro. Essa mistura de revolta, medo, apreensão, tristeza e desapontamento com as pessoas era uma tormenta que o fazia estar sempre com o humor diferente. Mas não era sua culpa, sentia aquelas coisas e não podia evitar sentir.

Um dos entraves mundiais que não saíam da cabeça de Edilson Adilson era a fome, claro. Quando pensava na fome o que ele fazia era chorar. Aquela imagem que vinha-lhe na mente machucava. Pensar em pessoas sofrendo por conta do egoísmo do mundo. Huh, se ele tivese algum poder pra mudar isso! - ...mas não tinha. Era só um funcionário do governo com influência abrangindo uma sala de cem metros quadrados de extensão. A África tem trinta milhões de quilômetros quadrados. Estava fora do seu alcance.

E Edilson Adilson só podia sofrer com isso. Tentava se informar o máximo possível. Documentários, reportagens, filmes, tudo o que denunciasse esses problemas mundiais ele procurava ver e divulgar, pra que seus amigos pudessem também estar cientes do que acontece fora de seus universos pessoais. Pena que Edilson Adilson não pudesse, ele próprio, ajudar.

Todos os dias, a caminho de casa ou do trabalho, Edilson Adilson ia pensando nisso, e remoía-se, e levava como dava, conhecendo o sofrimento mas sem poder desfazê-lo. E tudo o que pudesse fazer, com as suas condições, mesmo que alcançasse de alguma forma o sofrimento do outro lado do mundo, seria apenas paliativo, e essa impotência o machucava ainda mais.

Na rota casa-trabalho Edilson Adilson passava por ruas cheias de lojas, cheias de anúncios, e cheias de gente. Mas não prestava atenção nestas coisas porque isso o irritava. A futilidade dessas coisas o irritava e ele preferia seguir pelo caminho pensando em todas as coisas que o afligiam. E ele não via que no meio daquela gente havia também gente no chão, em cobertores rasgados e sujos. Gente numa situação não muito diferente da gente com que ele se preocupava. Toda aquela gente bem ali no seu caminho.

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