10 de dezembro de 2008

Analogia

Certa vez ouviram uma velhinha ralhar, escandalizada, com uma mãe que passava com dois iguais: "Ô minha filha! Os meninos são gêmeos! Têm de estar vestidos de igual!"

Tem a vantagem de poder pregar peças, e tramavam algumas naquele instante. E as duas senhoras que passavam não ouviram a resposta da mãe e não souberam dizer se foram percebidas. De verdade, a velhinha era uma exceção na opinião geral. Quando pequenos há alguns que acham bonitinho os gêmeos andarem vestidos iguais, ou de tom parecido, mas conforme vão esticando, o bonitinho diminui. Nas bocas de alguns chega a ridículo. A retórica, em geral, rodeava a construção da identidade própria ou, já em ponto de crítica, a falta de personalidade.

A maioria culpava a mãe das duas. Elas não. Sabiam que, desde cedo, tiveram consciência de que as gêmeas eram, afinal, duas pessoas distintas que tiveram a sorte de serem gêmeas. E quiseram continuar se vestindo igual. E se uma sujava a roupa, as duas tinham de trocar. E às vezes passavam tempo decidindo o que iam vestir. Hoje, alguém queria usar verde, e a outra marrom, e discutiam à exaustão quando não concordavam, mas ambas não abriam mão de se vestir igual. E quando chegavam a um consenso, voltavam a discutir um novo impasse.

Ainda tinham de lidar com inconvenientes, como pessoas que insistiam em presentear as irmãs com roupas diferentes, em datas como o natal e o aniversário. Os presentes eram ou completados ou ignorados. Os inoportunos se tornavam vítima de alguma confusão futura.

Confundir as pessoas era uma disposição permanente nas monozigóticas. E ainda que as manifestações de reprovação persistissem, elas encaravam com bom humor todos os efeitos dessa determinação. Naquele dia, o episódio da estrepitante senhora, elas completavam 62 anos de uniformidade.

24 de agosto de 2008

Tarde de bicicleta

Uma ida ao supermercado com a bicicleta. Uma tarde de bicicleta com os sons de uma avenida superficialmente movimentada, como a avenida de uma cidade pequena. Na descida o menino mudou de marcha. Fez a curva e freou.

Havia um homem deitado na calçada, em frente a uma barbearia lotada de gente. Ele tinha uma barba grande e grisalha, os cabelos crescidos para fora do boné que usava, de um time de futebol. Estava sem camisa e usava uma calça jeans suja e gasta, com um par de botinas amarelo sujo, também muito surradas.

O menino ajoelhou ao lado do bêbado, puxou sua mão e chamou. Depois no rosto. Sentou sobre o peito do homem e procurou nos bolsos da calça. Desceu e forçou a mão por baixo para ver os bolsos de trás. Dali tirou uma carteira fina, simples, com apenas dois compartimentos e a capa com nome e número de um candidato a vereador. Dentro havia apenas um documento e uma fotografia.

- Ei, moleque! – ouviu chamar.

Uma camionete encostou e uma mulher de cabelos brilhosos e boca larga, ao lado de um motorista de sobrancelhas pontudas que segurava sua mão, tornou falar.

- O que você ta fazendo, moleque? Que vergonha, se aproveitar que o homem tá bêbado pra tirar dinheiro.

Ele ficou em pé.

- Não, ele é meu pai.

O menino olhou o homem no chão, devolveu a carteira ao seu bolso, pegou a bicicleta e continuou o caminho para o supermercado. A camionete já tinha arrancado. Era uma tarde como outra qualquer.

8 de julho de 2008

Um Beijo

Havia um cenário colorido e saturado. Uma grama muito verde e um sol amarelo como em desenhos de crianças. Havia hortênsias e girassóis. Um banco azul. Um vestido alaranjado, uma camiseta roxa, uma calça verde. O dia também estava para pássaros e borboletas. Havia um magnetismo primaveril desenhando as impressões sobre aquele ambiente.

Havia um gafanhoto e um copo vermelho que ele tinha trazido. O gafanhoto estava sentado sobre o copo vermelho. Ao lado, um pote amarelo com o sorvete de maçã verde que ela mesma tinha feito. Ele se esticou para apanhar o sorvete, mas se assustou com o gafanhoto. Isso criou entre os dois uma proximidade física não experimentada antes.

Houve alguns segundos de imobilidade. Embora ambos tenham respirado apreciavelmente, o tempo pareceu não passar. A distância de antes não conseguiu se refazer e, na presença do gafanhoto, eles se beijaram.

Foi um beijo influente e determinante. Nesse instante um panorama de informações visuais e auditivas ficou sensivelmente claro. Como uma orquestra mapeada, a natureza se apresentou. Foi um beijo virtuoso. Se um deles fosse um sapo, haveria conseqüências incríveis.

17 de abril de 2008

Veneza

Seria nossa primeira grande viagem juntos desde que começamos a namorar. E deveria ser a mais empolgante de nossas vidas. Digo deveria não porque não tenha sido, mas porque os sentimentos que circundaram os passeios, durante aqueles dias, modificaram um pouco a idéia principal da viagem.

Era algo que tínhamos em comum. O destino preferido. Nas conversas do tempo do colégio, muitos ficavam comparando as vantagens de cada lugar. Roma, Berlin, Paris, Londres, seus pontos turísticos, o clima, o idioma, as pessoas. Eu nunca pensei duas vezes. Veneza era minha paixão.

Quando finalmente aconteceu, um efeito não foi previsto. Enquanto você admirava arquitetura da cidade, eu preferia o brilho de uns olhos vislumbrados e exuberantes de felicidade. Enquanto você atentava para os adornos e a decoração da Catedral de São Marcos, que eu tanto havia especulado, eu estudava suas feições satisfeitas ao olhar cada detalhe. Enquanto estávamos sobre a Ponte de Rialto e você olhava o horizonte, eu só podia olhar para o lado e sentir um imenso prazer em ver seu contentamento. A cidade e os passeios ficaram em segundo plano.

Posso afirmar convicto que fiquei realizado com a viagem dos meus sonhos. Mas para mim o espetáculo foi outro.

15 de abril de 2008

Pausa

Como quando a gente gosta muito de uma roupa mas não consegue tirar uma mancha. Ele não esperava que por isso não fosse continuar usando.

É complexo lidar com seres humanos, eu sempre achei. Mas às vezes acontece essa auto-redução a matrizes muito simples.

Foi quando, pela primeira vez, não foi admoestado, que ele se resolveu. Não que isso resolva com qualquer um, mas já é interessante que funcione assim com alguém, uma pessoa que seja. Basicamente foi uma queda, longa e penosa. Sentir que alguém que sempre estava ali, ao lado, disposto e preocupado, desistiu de você. Um ponto: o egoísmo desse sentimento não era insconsciente, mas não é isso que é pra ser discutido agora.

Sempre tendia a descrever essas sensações de desespero, angústia e falta como espasmos, compressões e orgias entre seus órgãos internos. Vísceras em agonia. Dessa vez era só oco. Uma falta de tudo. Aliás, havia luz. Uma luz inexpressiva, enigmática.

Descobriu que não havia maior desgosto que não ouvir a música que deve vir com o silêncio.

8 de abril de 2008

Fissão

A primeira coisa que reparei foi a boca. Sempre achei bocas mais expressivas que olhos. Reparava no seu formato, e nos formatos que assumia. E como ela se mexia. Com o sorriso, a mastigação, a dicção, e até os movimentos supostamente sem propósito. E o queixo, que é meu particular fascínio. Depois, os olhos. A cor, que tantos outros têm igual, era única. A vivacidade e a jovialidade, ou a preguiça e a ressaca expressa neles. Os cílios, as sobrancelhas e suas texturas. Podem rir de mim, mas até o branco dos seus olhos eram especiais.

Quando tudo começa a ficar tão perfeito assim a sensatez já se foi.

Acabei com o rosto. As máscaras. As bochechas, as orelhas, o nariz, o cabelo, a nuca, e todas as combinações expressivas. E as aparências. E as fotografias. A voz, o vocabulário. E as opiniões. Daí as mãos. Braço e antebraço. E explicações. Os dedos, as unhas, as linhas, as articulações. Os movimentos, os rápidos e os lentos. E tudo que tocava. As depreciações e as apreciações. As palmas e os estalos. As aprovações, as posições. E então o andar. E as disposições. E as pernas, o dobrar dos joelhos, os ombros, a cintura, o bumbum e tudo o mais que há de bom. E os gostos, e as tensões. E as intenções. E o vestir. E as ações e as preparações.

E o existir.

Estranho quando se toma liberdade de fazer planos pra outra pessoa. Há quem diga que o amor é egoísta, e que não enxerga deformidades, e mil teorias mais.

Às vezes me pergunto se um diagnóstico precoce evitaria alguma coisa. Ou se alguma coisa só se evita quando realmente não há tanto potencial. Mas pra quê sensatez?

Eu acho que o amor é cego, sim. Aliás, acho que o amor deve ser cego.

28 de março de 2008

Bem-te-vi

Uma mulher empurra a porta do quarto gentilmente e entra e observa. Acaba de amanhecer, nota-se no verde dos sons do lado de fora. No berço, o menino está sentado, com o dedo apontado para cima. Os dois se olham. As cortinas já tinham sido abertas. A luminosidade que entra pela janela dá conta do quarto todo. Há um clima de paixão no ar. Pelo existir. Pelo dia que começa. Peperri, ele diz. Levanta as sobrancelhas e comprime a boca num ar de extremo interesse e olha pela janela. A mulher sorri uma mistura deliciada-satisfeita. Pulsa e se desmancha. Ele retribui o sorriso. Escuta de novo. Se espanta, sorri e repete: peperri, peperri.

8 de março de 2008

Crescer

No começo eu não fazia. Só observava. Depois de descascada a laranja era partida em partes desproporcionais. Uma grande e uma pequena, que eu chamava, pois assim aprendi, de tampinha. Era com essa parte que eu ficava.

O incerto decerto nasceu comigo
O desejo, a despeito, cresceu comigo
O medo, de algum modo, era meu amigo

Depois, ainda não descascava, mas passei a ganhar laranjas inteiras.

As compressas ligeiramente eram colocadas
E parte de mim era energia coagulada
Não sei que sanção era aquela, ou quem a produzia
O fato é que ajudei aplicá-la em mim

Comecei a arriscar. Um pouco por desejo. Um pouco porque começavam a cobrar isso de mim. A laranja ficava toda machucada. Às vezes ainda pedia que a cortassem pra mim. Algumas vezes cortei o dedo. Mas eu me esforçava. Me concentrava. Até quando a casca sairia inteira? Até que parte conseguiria não deixar aparecer os gomos?
Às vezes a casca era fina demais.


Chorar, quando criança, era sinônimo de coisa ruim.

Agora faço um trabalho melhor. Os gomos não aparecem mais. Às vezes ainda erro, mas sei lidar melhor com isso. Agora até descasco laranja para os menores.

Automaticamente domesticar.
O cérebro fica feio porque cresce mais rápido que o crânio
As pessoas crescem mais rápido que suas mentes
Mas é quando suas mentes já cresceram o bastante que ficam feias
Os provectos impressionam, mas não valem

Plota-se uma imagem triste e bela e durmo
Sensações são ou bumerangues ou tatuagens

12 de janeiro de 2008

Dicotomia

Irmãos. Ela sentada numa cadeira, com uma revista nas mãos. Ele atrás, com uma escova e um secador.

Ele: Olha! Que cabeça eu tenho... Olha do que fui me lembrar! Mês que vem é meu aniversário.
Ela: Vou te ignorar.
Ele: Meu aniversário... Que interessante!
Ela: Ai! Cuidado com essa escova! (...) Vai ficar bem bonito, não vai?
Ele: É... Pode ser...
Ela: OK. O que você quer ganhar de aniversário?
Ele: Meus 18 anos de volta.
Ela: Não é tão mau fazer 19.
Ele: É mau perder os 18.
Ela: Você não perdeu. Aproveitou deles por um ano.
Ele: Não é o bastante.
Ela: Ai! Você não sabe usar um secador de cabelo?
Ele: Eu sei fazer funcionar.
Ela: Nem parece que é gay.
Ele: Não diga.
Ela: Esse é mais um joguinho pra ver quem irrita mais quem?

(...)

Ele: O que você está fazendo?
Ela: Arrumando meu cabelo.
Ele: Não, isso eu estou fazendo. O que você está fazendo?
Ela: Eu estou lendo.
Ele: E...
Ela: Anotando.
Ele: Pra...
Ela: Pra ter anotado quando eu precisar.
Ele: Na própria revista...
Ela: Bem observado.
Ele: Por que precisaria...
Ela: Eu estou fazendo um teste.
Ele: Que tipo de teste?
Ela: Um testede personalidade.
Ele: Que tipo de teste?
Ela: Um tipo engraçado.
Ele: Eu fiz um semana passada que dizia qual x-man eu sou.
Ela: Aposto que você é o professor Xavier.
Ele: Que tipo de teste?
Ela: Por que você toma tanto café?
Ele: Porque o cara da propaganda toma café na praia com uma gostosa do lado e eu quero ser igual a ele.
Ela: Ele diz qual das estações do ano eu sou.
Ele: Parece um bom teste.
Ela: Tio Johan nasceu e morreu no inverno. Ele com certeza era um inverno.
Ele: Tio Johan não foi o terceiro marido da Tia Salete?
Ela: Esse aí.
Ele: Ele passou a vida toda na Finlândia.
Ela: Mas ele nasceu e morreu no inverno. Morreu um dia depois que nasceu.
Ele: 79 anos e um dia depois que nasceu.
Ela: Existe um x-man gay?
Ele: Não, mas existe um que arrumaria seu cabelo sem precisar do secador.

(...)

Ela: Não pode ser.
Ele: O quê?
Ela: Seu presente. Escolhe outra coisa.
Ele: Então quero meus 17 anos de volta.
Ela: Tá bom, então eu escolho alguma coisa.
Ele: Quero uma viagem. Pra Finlândia.
Ela: Visitar o túmulo do seu tio?
Ele: Fazer um curso de cabeleireiro.
Ela: O que você quer?
Ele: Uma moto.
Ela: Outro.
Ele: Um piano.
Ela: Outro.
Ele: Uma adega.
Ela: Outro.
Ele: Uma máquina de café expresso.
Ela: Outro.
Ele: Você não quer me dar nada que eu queira.
Ela: Isso não vai funcionar. Eu posso ficar horas jogando seu joguinho...
Ele: Quero trazer a vó pra passar uns dias com a gente.
Ela: Desisto. O próximo que você disser é seu.
Ele: Um gato.
Ela: Outro.
Ele: Está decidido.
Ela: Você não vai trazer um gato pra dentro da nossa casa.
Ele: Trago amanhã.
Ela: Seu aniversário é só mês que vem.
Ele: Amanhã de manhã.
Ela: Eu escolho o nome.
Ele: Sem chance.
Ela: Então vou vestir ele de vez em quando.

(...)

Ela: Olha do que fui me lembrar! Eu também faço 19 anos no mês que vem. No mesmo dia que você.
Ele: Esquece, comigo não vai funcionar.
Ela: Você é o professor Xavier, não é?
Ele: Sou o Ciclope.
Ela: Não é não. Você é o professor.
Ele: Sou o Ciclope. Na primeira tentativa. Respondendo honestamente.
Ela: Que droga! Eu sou uma primavera, definitivamente.

6 de janeiro de 2008

Cinco Minutos

Corri meio quarteirão até encontrar abrigo em frente a um aviário. Uma senhora, negra, os cabelos armados e os dentes um pouco tortos já estava ali, com um carrinho de bebê.

Você sabe que horas são?

Respondi.

Tomara que essa chuva passe logo.

É.

Eu saí só pra dar uma volta com o menino. Tenho que voltar logo porque o pai vai passar pra pegar ele. Eu cuido dele. O nome dele é João Eduardo. Andei dois quarteirões e ele já tinha dormido. Parece que tá ficando mais forte. A chuva. Eu tenho um guarda-chuvas aqui mas com essa chuva iria molhar o carrinho do mesmo jeito. Você mora aqui perto?

Na rua de trás.

Eu moro ali pra frente, perto daquela creche. Eu trabalhava na creche, mas precisei sair. Sempre gostei de criança.

Eu também gosto.

Viu o acidente que deu ali perto no outro dia que choveu?

Não.

Foi feio. Uma moto e um carro, no cruzamento. Ninguém daqui de perto. Chuva é um perigo pra acontecer essas coisas. Se bem que não precisa de chuva pra acontecer também, né.

Verdade.

Tinha uma menina linda na época que eu trabalhava ali. Na creche. O nome dela era Clara. Uma tragédia, coitadas. Morreu ela e a mãe. Tavam na estrada, o carro perdeu o controle e bateu de frente com um caminhão. As duas morreram na hora. Às vezes não dá pra entender. Dá um cinco minutos e tudo muda. Em coisa de cinco minutos nossa vida dá uma volta...

Nossa!

O pai tá inconformado até hoje. Era ele que buscava a menina todo dia na creche. 'Cadê minha princesinha?', ele dizia. Ela era a princesinha dele mesmo. Eles mimavam bastante a menina, parecia. Ela queria ser bailarina. Vivia dançando, o dia todo. E não comia direito, pra não engordar, já naquela idade. Ela era meio metidinha. Toda pessoa bonita demais é meio metidinha. Ela nem brincava com as outras crianças. Não queria se sujar. Odiava terra. Coitada! Disseram que no acidente ela ficou toda coberta de terra, a coisa que ela mais odiava. Ouvi dizer que o pai, quando viu que ela tava cheia de terra, tentou tirar ela do lugar na hora, desesperado. E depois gritou pra tirarem ela, gritava que ela não gostava, queera pra tirarem ela de lá. E também não deixou ela ser enterrada, não. Foram cremadas, as duas. Agora ele se mudou daqui. Não sabem pra onde ele foi, não. Deve estar muito abalado ainda. Eu tenho muita pena dele. Olha, a chuva diminuiu. Eu vou andando.

Até.

Até!

29 de dezembro de 2007

Presépio Vivo

Depois da gritaria da velha professora e do nervosismo da sua ajudante nervosa e com cara de sofredora, arrumaram todas as crianças como era devido. O espetáculo começou.

Começou com uma dança, só de meninas, que eram anjos, mais ou menos sincronizadas, sorrindo muito. A professora, esta mais jovem que as outras duas, que provavelmente havia ensinado a dança paraas meninas, dançava junto, para que elas não se perdessem na coreografia e quem esquecesse de algo pudesse copiar. A velha professora, em seguida, mudara drasticamente de sua voz irritada e irritante prara uma voz doce e sonhadora, ainda irritante.

A confusão toda começou quando nasceu Jesus.

Havia pastores espalhados por todo o jardim e, numa pequena cabana, aprontada para o espetáculo, estava Maria, José e o menino Jesus. O microfone da velha narradora falhou e ela mandou que começasse uma dança enquanto ela ia buscar outro. José saiu correndo da cabana porque dois dos reis magos, que ainda não deveriam ter entrado em cena, queriam lhe bater. A professora da dança foi acudir. Soltaram a música que devia substituir a narradora e todos os pastores e anjos puseram-se a dançar sem a professora. Uma linda menina de vestido rosa, a menor das crianças depois de Jesus, girava sobre si mesma, compenetrada, enquanto todas as outras giravam em torno de uma estrela do meio do jardim.

Maria começou a gritar pelo José. Ele voltou com a professora e os dois reis. Os três choravam. O terceiro dos reis entrou trazendo, sozinho, ouro, incenso e mirra. Entregou a Jesus. Maria começou a chorar porque queria amamentar Jesus e não a deixavam. A professora narradora não conseguoiu achar o microfone e voltou desesperada ao jardim.

Tia, o menino Jesus fez cocô.

A platéia começou a rir. Ninguém entendeu quando todas as crianças correram, desesperadas, e atravessaram a platéia. Até que viram que vinha trazendo o microfone que ninguém mais achou, tentando não ser visto, o Papai Noel, com o rosto mais vermelho que sua roupa. O show terminou.

8 de dezembro de 2007

Catorze

Moravam numa casa amarela, numa rua que descia desde o centro da minúscula cidade até um rio no seu limite. Dava para ver de lá a estrada, única entrada e saída do lugar. A casa não era pequena. Acabou ficando apertada com cinco crianças. No entanto, alguém sair e desapertar deixaria um vazio compreensível.

Os cinco se alternavam em sexo e idade. O rapaz mais velho, a menina que acabara de entrar numa fase mais madura de sua adolescência. outro menino nos seus doze anos, uma sardenta aos dez e o caçula que completava, naquele dia, sete anos.

Ok, primeiro o café da manhã, depois a surpresa, a mãe.

Seu presente está lá fora, o mais velho cochichando.

No fundo ela sabia que não haveria café da manhã àquela hora para o seu pequeno sonhador naquele dia. Talvez uma hora mais tarde, quando ele viesse pedir pra ir mais longe.

Correu, abriu a porta dos fundos e soltou um 'UAU'. Todos, claro, se aglomeraram na porta para ver de que se tratava. A surpresa foi para a mãe do menino. Quando ela se aproximou da porta viu que a bicicleta nova que devia ser o motivo de toda a efusão estava despercebida, no canto onde a deixara. O entusiasmo do menino devia-se a um animal que estava olhando atônito seu pequeno observador na área da casa.

Obrigado, mãe!!

Um carneiro. A metade mais jovem dali não se preocupou em imaginar se aquilo era comum. Ao invés disso, escolheram um nome.

Vou chamá-lo de Catorze.

O carneiro Catorze nunca viu seus antecessores, porque estes não existiram. O nome era apenas rendimento da estranheza do aniversariante.

A mãe tratou de abrir inquérito para resolver o mal entendido e mas não havia sido nenhum dos irmãos o autor daquela 'brincadeira'.

Se não foi você, alguém me deu. Agora o Catorze é meu.

Catorze e o menino fizeram uma bela amizade. No entanto os pais estavam irredutíveis. Ter um carneiro era muita responsabilidade para o menino. E antes que argumentação dos irmãos começasse - todos se propuseram a ajudar a cuidar do mascote - o dono apareceu.

Foi com lágrimas que se despediu do bicho, e talvez com uma promessa em segredo. O menino estava inconsolável, mas essas coisas de criança passam. E enquanto a família retratava o incomum incidente da data, algum observador pensava como podia trazer tanta alegria ter um carneiro por um dia.

2 de dezembro de 2007

Muito longe

Edilson Adilson era um rapaz preocupado. Suas preocupações iam do início ao fim do telejornal. Preocupava-se com a violência mostrada no país e preocupava-se com a futilidade do jornal em mostrar as habilidades do cavalo Aquiles. Com a roubalheira e os escândalos políticos e com a falta de chuvas. E com a falta de ética em qualquer lugar. A falta de ética, pensava ele, era o mal que alicerçava todos esses problemas.

Algumas coisas deixavam Edilson Adilson revoltado, outras o deixava com medo, e triste, claro. Essa mistura de revolta, medo, apreensão, tristeza e desapontamento com as pessoas era uma tormenta que o fazia estar sempre com o humor diferente. Mas não era sua culpa, sentia aquelas coisas e não podia evitar sentir.

Um dos entraves mundiais que não saíam da cabeça de Edilson Adilson era a fome, claro. Quando pensava na fome o que ele fazia era chorar. Aquela imagem que vinha-lhe na mente machucava. Pensar em pessoas sofrendo por conta do egoísmo do mundo. Huh, se ele tivese algum poder pra mudar isso! - ...mas não tinha. Era só um funcionário do governo com influência abrangindo uma sala de cem metros quadrados de extensão. A África tem trinta milhões de quilômetros quadrados. Estava fora do seu alcance.

E Edilson Adilson só podia sofrer com isso. Tentava se informar o máximo possível. Documentários, reportagens, filmes, tudo o que denunciasse esses problemas mundiais ele procurava ver e divulgar, pra que seus amigos pudessem também estar cientes do que acontece fora de seus universos pessoais. Pena que Edilson Adilson não pudesse, ele próprio, ajudar.

Todos os dias, a caminho de casa ou do trabalho, Edilson Adilson ia pensando nisso, e remoía-se, e levava como dava, conhecendo o sofrimento mas sem poder desfazê-lo. E tudo o que pudesse fazer, com as suas condições, mesmo que alcançasse de alguma forma o sofrimento do outro lado do mundo, seria apenas paliativo, e essa impotência o machucava ainda mais.

Na rota casa-trabalho Edilson Adilson passava por ruas cheias de lojas, cheias de anúncios, e cheias de gente. Mas não prestava atenção nestas coisas porque isso o irritava. A futilidade dessas coisas o irritava e ele preferia seguir pelo caminho pensando em todas as coisas que o afligiam. E ele não via que no meio daquela gente havia também gente no chão, em cobertores rasgados e sujos. Gente numa situação não muito diferente da gente com que ele se preocupava. Toda aquela gente bem ali no seu caminho.

13 de novembro de 2007

A última vez

Qual o grau de parentesco que tinham? Eram pai e filho. Não há ninguém mais próximo nesse tipo de grau.

Qual o grau de proximidade que tinham? Não eram pai e filho. Não nesse tipo de grau.

Quantas vezes se falavam por ano? Uma, duas talvez. Que tipo de conversas tinham? Não se podia classificar o que tinham como conversa. Talvez um parabéns no aniversário, um oi que saudade quando se reviam. Uma brincadeira com uma voz esganiçada, a voz de quem disfarça uma relação destruída. Havia, sim, saudade. Mas saudade do quê? Não era a saudade usual. Era esperança de que pudesse ser diferente. A saudade do que ainda não aconteceu. Em todas as vezes havia essa esperança. Contavam uma lembrança, riam, e um fio raro de alegria não dissimulada passava por seus corações. E sentiam isso. E se assustavam com essa abrupta liberdade e recuavam.

Essa falta de proximidade intelectual não era devido à falta de proximidade física. Era mesmo porque não se davam.

O dia dos pais era o mais vazio. Não se viam, claro. E ninguém ousava tocar no assunto, com quem fosse. Cada um no seu canto, pensando ou não no dia em que estavam.

Preencher formulários já não era problema. Era só um nome, escrevia o nome do pai e pronto. Conversar com os amigos não era problema. Quando perguntavam ele dava as últimas notícias que teve do filho, através um qualquer, e logo se calava.

Era tudo controlado, afinal estavam nesse estado há bastante tempo. Não enxergavam frieza nisso, só cuidado.

Na última vez pôs suas mãos sobre as dele e sentiu seus calos. E sentiu sua maciez. Não sentiu por quem seriam aqueles calos. Ele também não sentia por quem eram seus próprios calos. Nem percebia que precisava sentir isso. Nenhum dos dois, na verdade,percebia o quanto aquela proximidade significaria e o que não significava mais há muito tempo. E nesta última vez o mesmo sentimento permaneceu. A esperança que parecia saudade. E a sensação de que aquela talvez não fosse a última vez e que pudessem ter esperança de novo. Esperança de que realmente pudessem se reencontrar, um dia.

Eles se reencontraram, sim. Mas a esperança morreu. Morreu no pai e no filho. E também morreu nos olhos das pessoas que os olhos de cada um dos dois via. Talvez fosse melhor sentir o pesar do medo e da culpa do que a esperança. O que viam os olhos dos outros era a deficiência física que os dois carregariam dali adiante e para a qual não havia esperança de cura. Continuaram vivendo sem sentir a deficiência.

5 de novembro de 2007

A primeira vez

A primeira vez era sempre única. Era mágica, com a novidade e a apreensão de toda primeira vez. Não que nunca, numa outra vez, fosse bom, mas a primeira era diferente.

No primeiro beijo havia uma sensação de incredulidade, de descoberta e de uma tão bela inocência. Depois não deixava de ser bom, mas não era como na primeira. Havia o controle do algo já conhecido.

A primeira vez no palco, discursando para um público: o medo, o nervosismo e a ansiedade de antes, satisfação e alívio depois. Com as próximas vezes viria a segurança e uma cobrança maior.

Todas as primeiras vezes tinham sensações singulares, pelo esperado e pelo inesperado e pela preocupação infantil de toda primeira vez.

Certa vez houve a primeira vez que esteve com alguém. Sequer se falaram, mas misteriosamente houve a sensação de primeira vez. E, pela primeira vez, as outras vezes foram tão especiais quanto a primeira. E aquela impressão de primeira vez repetida era tão boa, que se apaixonou.

24 de outubro de 2007

Sorrisos

Foi um oi por impulso. Se não estivesse passando tão distraidamente ela não teria coragem de pronunciar aquele oi alto, longo e chamativo. E não teria dado um sorriso que pareceu a ela tão revelador. Começou nela uma certa agitação interna que a fez rir de si mesma. Ele ficou surpreso. E nervoso. Sorriu. Todos os seus órgãos pareceram mudar de posição naquele momento. E ele não conseguiu dizer nada. Disse 'oi'.

Ela estava agora lembrando do livro que estava lendo quando o conheceu. Expressões como 'tudo bem', 'fazendo o que da vida' deixavam aquela conversa terrivelmente silenciosa. Era um romance dos mais apaixonantes. Precisava relê-lo. Ele se lembrou, de repente, de uma música que tocava na rádio no tempo em que a conheceu. Ele aprendeu a tocá-la, no teclado. Na época parecia difícil, mas era um esforço que fazia por prazer. Sabia que ela gostava da música.

Como estavam mudados! O modo de se vestir, o de falar, o de caminhar. Não mudaram os sorrisos. No entanto aquela sensação de inquietude quando se encontravam não mudou. Ele ficou desconcertado por lembrar das vezes que recusara a partida de futebol com os amigos pra passar, casualmente, em frente à casa dela, na esperança de ele não sabia o quê! Apenas passava em frente com um anseio terrível com alguma ação. Ela se lembrou das vezes que suas amigas perguntaram de quem ela estava gostando. E quando perguntaram o que achava dele. Dizer qualquer coisa a respeito dele seria inútil, nunca tinham se falado direito. Claro que, agora, todos esses pensamentos de adolescente não existiam mais.

Eles nunca tinham sido amigos, no entanto ela o parou na rua como se tivessem sido os melhores. Eles nunca tinham sido amigos, no entanto ele se lembrou dela desde o primeiro instante.

Eles se despediram. Não trocaram telefone nem msn. Mas deram-se um beijo no rosto, e com ele trocaram toda a ternura que nunca nenhum mostrou no passado. Foram andando em direções opostas. Nunca sorriram sorrisos tão satisfeitos como aqueles.

9 de outubro de 2007

Olhos empedrados

As pedras eram do tamanho de grãos de arroz. Não lhe causavam dor alguma. Eram como gotas de eletricidade lhe atingindo as costas e a cabeça. Se fosse algo previamente combinado poderia até ser relaxante. Mas naquele atirar de pedras, o que o incomodava era a superioridade imposta pelo irmão. Já estava até acostumado. Andando com o sol diretamente sobre suas cabeças, revezavam o carrinho pesado de lixo e a busca por papelão, plástico e metal. Era quase meio-dia, a hora em que ele começava a ver as outras crianças indo da escola de volta pra casa.

Vamos logo!

Em frente a um terreno abandonado, minutos depois, encontraram, ao lado de um poste, uma sacola azul, grande, amarrada com um pedaço de fita amarela suja. Automaticamente, o pequeno abriu pra olhar o que havia dentro e, fazendo uma careta, chamou o irmão.

Corre aqui!

Havia dentro da sacola um cachorro, enorme, de pelo fechado, bem amarelo, os olhos vidrados bem pretos, como duas jabuticabas empedradas. Algo cinza escorria dos olhos, o focinho estava sujo de terra e extremamente seco. As orelhas estranhamente intactas e belas. Devia ter sido um cachorro muito bonito. Rasgando um pouco mais a sacola descobriram o restante do corpo do animal, um pouco de sangue e muitos mosquitos.

Os irmãos não precisaram se olhar pra começar o procedimento posterior. O mais velho terminou de tirar o corpo do bicho da sacola, enquanto o menor pegava alguma coisa no carrinho pra começar a cavar. Começaram, então, o funeral.

Os espíritos dos meninos estavam mais para carreata que para procissão. Começaram a jogar terra sobre o cachorro como se fosse tão divertido quanto destruir um formigueiro. Será que ele já teve família? Algumas pessoas passavam e olhavam o enterro tendo prosseguimento. O apito de uma fábrica soou como um réquiem. Na falta de velas os dois garotos olharam para o sol. Mentalmente se entenderam e já podiam abandonar o monte de terra que haviam construído ali. Será que ele teve dono? Ou foi cão de rua? Os olhos do irmão mais velho agora estavam duros, quase como os do cachorro.

O mais velho tomou o carrinho de lixo e foi andando. O mais novo permaneceu alguns momentos mais. Olhos tristes e sonolentos. Crianças voltavam da escola, andando, correndo, ocupadas ou distraídas, uniformizadas, e sem olhos, e nem notavam o estranho monte de terra, ao lado do poste, ao lado do menino, ao lado de ninguém.

No alto daquele poste havia uma casa pequena de joão-de-barro. O menino catou do chãos algumas pedras e começou a atirá-las para o alto, na direção do monte de barro.